“Deus tirou os dentes, mas engrossou as gengivas”. Gerson Francisco da Anunciação
Palavras de Rafael Alves França
There was once this art from Brazil
There was once this art from Brazil
To be played in the beach
To be played in the hill
A fight, a dance, a game
An art to spread happiness,
A weapon to hurt and kill
For you to crawl as a snake
And hear “For Christ sake!”
Leave the crowd with their thrill
Where you can fly like a bird
Can clap, can sing, can smile
And give other’s spines a chill
A dialogue without words
To show malicia and strength
To do mandinga and tricks
To show control and skill
A game where the winner
More than the one who beats
Is the one who gets the most joy
Who make from the opponent his toy
Who makes the butter to spill
Created by slaves down south
Who said with their feet
What they couldn’t with their mouth
Who chopped the sugarcanes
Who seeded the black coffee in lanes
Who with their hands moved the mill
Who were taken from their home
But in their minds had the power
To make from their pain, something new
Who, when freed, reached town
Discriminated, black or brown
Didn’t accept their way of living
Imposed their point of view
And took from their former lords
Money, blood and much more
Showed them the other face of the coin
The disease for what there’s no pill
Cause the world spins
Completes one round per day
All you do comes back to you
If you ordered the food
Then pay the bill !
Nu samba da Conceição
Nu samba da Conceição (Teimosia)
Nu samba da Conceição
Chegô gente prá sambá
Tocadô chegô primêro
Par’a festa perpará
I limpô o chão com sá
I butô água-di-chêro
Par’a festa perpará
Tocadô chegô primêro
Cantadô chegô dispois
Carregano seu gogó
Gargarejô cum limão
Pru cantu saí meió
Afinan’a cantoria
Um-doi-trêi i trêi-um-dois
Carregano seu gogó
Cantadô chegô dispois
Sambadô chegô na hora
Feiz u samba cumeçá
Trouxe sola di pé grossa
Cumeçô sapatiá
Tambor fala
O tambor fala pelas minhas palmas
quando o braço desce, o som sobe
quando a mão dói, a alma salta
o tambor solta seu grito, que é também meu
couro que esteve esticado sobre carne
agora esticado sobre madeira
alma de árvore, esqueleto de aço
a cada tapa, uma resposta
o suor do braço é lágrima no couro
e o rufo do oco é grito do homem
tambor é para se falar com as mãos…
Agogô e reco-reco NÃO são coadjuvantes
Agogô e reco-reco NÃO são coadjuvantes… Não deveriam estar presos por corrente nenhuma, deveriam injetar cada vez mais molho em uma levada. Cada um tem seu papel numa boa bateria, e deve trabalhar solto dentro da base. Vai, sai, floreia, volta; vai, sai, floreia, volta. Pedra que rola não cria lodo!
A iún’é mandinguêra
A iún’é mandinguêra (adaptado do domínio público)
A iún’é mandinguêra
Quano tá nu bebedô
Foi sabida, foi ligêra
Mai capuêra matô
Adeu pássaru cantô
Bem-ti-vi cantô sereno
Pomba si jogô nu á
Jão-di-Barru cum tristeza
Lá na mata deu siná
Papagai’é faladô
Maritac’é faladêra
Piriquit’é mintiroso
A jandai’é fofoquêra
Todos pássu cum sodade
Da iúna mandinguêra
“Meu Deus, querem afeminar a capoeira”
Mestre Canjiquinha
“Desafiei todos os valentes”
Mestre Bimba, conte-nos de onde veio, seu nome completo, sua história.
Meu pai chamava-se Luis Pereira Machado, minha mãe Maria Martinha do Bonfim, meu nome é Manoel Reis Machado. Muita gente me pergunta: “Porque Mestre Bimba?” Eu não gosto de dizer… Tem gente que acha que é por causa da luta, mas não é. Porque lá em Salvador, onde eu nasci em 1900, “bimba” também quer dizer pancada. Meu nome é por causa de outra coisa. É por causa de uma aposta. Minha mãe teve vinte e cinco filhos, eu fui o último. Dizem que eu nasci muito gordo. Minha mãe apostou com a parteira que eu era homem e a parteira dizia que era mulher. Então, para saber se eu era homem ou era mulher, como era muito gordo, abriram minhas carnes para ver… e encontraram lá a “bimba”!… (Mestre Bimba reclama do garçom do Hotel Presidente, onde esta entrevista foi feita: “Cadê o tira-gosto. rapaz?”).
Trabalhei em carpintaria, trabalhei também na estiva, isso por volta de 1918. Carregava peso de 120 quilos… Conheci nesta época um mestre de Capoeira de Angola. Essa é a capoeira de Angola, porque existe também a Regional, que eu criei. Ele se chamava Bentinho. Ele era filho de dois africanos, eu sou neto de africanos. A partir desta época, então, eu aprendi a Capoeira de angola e passei a criar a regional.
Como era vista a luta de Capoeira naqueles anos?
Naquela época, quando se falava em Capoeira, falava-se baixo Os que aprendiam capoeira só pensavam em ser bandidos.
Ser valente estava na moda?
Era gostoso. Já pensou o que era, pra essas pessoas, enfiar a peixeira na barriga dos outros, rapaz?… Mas então, tem gente que pensa que Capoeira é luta de queda. De maneira que de 1918 a 1936, eu, Mestre Bimba, desafiei todos os valentes e venci: A luta que mais demorou, durou um minuto e dois segundos. Daí para cá mudei muito de vida. Larguei a estiva, larguei tudo, tomei outro curso de vida.
Qual a diferença fundamental entre a Capoeira Regional e a Capoeira de Angola?
Os capoeiras de Angola, a única coisa de bom que tinham era a coragem. Então, o que aconteceu? Um rapaz de doze, quinze anos, até vinte, quando aprendia a luta, naquele tempo, a tendência era pra comprar um revólver ou uma faca. Então, quer dizer que isto não era um esporte… E quem tirou a Capoeira do Brasil da unha da polícia, eu acho que abaixo de Deus fui eu…
Quer dizer. Mestre Bimba, que a capoeira de Angola era aquele que botava uma navalha na ponta do berimbau?
Muito bem. Falou.
O senhor teve um conhecimento profundo da Capoeira de Angola antes de criar a Regional?
Por dez anos eu ensinei Capoeira de angola. Depois eu passei a ensinar Regional. E peguei a ganhar dinheiro. Mas eu sou um homem pobre. O que eu tenho muito é amizade. Os homens mais ricos da Bahia passaram por minhas mãos. Se eu fosse dizer o nome de todos eles, passava a tarde inteira.
Com tanta gente boa, dando aula até pra Governador (tem governador, não tem?), como é que tudo ocorreu de forma que o senhor tivesse que sair da Bahia, por problema financeiro?
Na Bahia, acontece o seguinte: se o senhor chegar e pedir um auxílio para uma festa, um festejo carnavalesco, para uma qualquer coisa, que pertence à farra, tá bom. Mas se for para curar, para ensinar, para ajudar uma academia a bem do povo, não acha.
Quantos grupos de Capoeira existem na Bahia?
Agora eu não sei nem contar. Primeiro existia só o meu, agora existem uns trinta e oito.
O senhor acha que essa atual invasão de turistas está estragando a Bahia?
Quando eu apresentei espetáculos de folclore na Bahia, sempre fui muito elogiado. Mas agora, atualmente, existe muita falsificação. Seguinte: Capoeira é luta pra homem (e também pra mulher, depende). Mas acontece que pra ganhar dinheiro, até Capoeira do Amor já existe. A mulher fica deitada, vem o sujeito e salta por cima da palma da mão dela; só que aí se desloca sobre o próprio corpo, se agarram, e saem rolando… Bimba não ensinou isso não…
A música que se utiliza na Capoeira, talvez por ser baseada no berimbau, dá a impressão de ser pobre, repetida. Acontece isso, realmente ?
Berimbau tem oito toques. Numa roda, pode-se tocar um toque, ou dois, ou oito… Quer dizer: não é um instrumento que tem o “estoque” que tem o violão e outros instrumentos. Mas dá pra satisfazer… A regra é um berimbau e dois pandeiros.
O Maculelê tem origem própria ou veio da Capoeira?
Não, não tem nada a ver Maculelê com a Capoeira. A lenda do Maculelê vem dos índios que existiam no Brasil. Teve uma tribo que brigou com outra. Então, do lado de uma tribo tem um herói que venceu com dois pedaços de pau. Daí o nome: Maculelê.
Existem algumas variações: Samba-Duro, Samba-de-Roda… Como é que são esses sambas?
Samba-de-Roda só se faz com mulher, com meninas. O Samba-Duro é samba de queda, um samba de batuque – é mais pesado. É um samba de homem, é sambando e derrubando. O Samba-de-Roda, dá licença. É só pras meninas mexerem com as cadeiras.
Nessas tradições todas de música e dança da Bahia, existe uma influência multo grande dos africanos. Há também influências portuguesas e indígenas no folclore baiano?
Além do batuque e desses sambas, o que restou foi um “terno” chamado Rancho Feliz, que não existe mais e que se incorporou ao folclore. Então, tudo isso foi criado pelas “cachoiranas”, mulheres apropriadas para o samba Dessas mulheres pra cá é que se aprendeu o que é Samba-de-Roda.
Mestre, existe uma dança francesa que se desenvolveu por volta de 1650, chamada “Savata”. Tem uma semelhança entre esta dança e a Capoeira, é uma dança e ao mesmo tempo uma luta; como na Capoeira, usam-se os pés e as mãos, apesar de não se utilizarem instrumentos musicais. Esta “Savata” pode ter Influenciado a Capoeira?
Eu acredito que não. Porque a Savata foi criada pelos estrangeiros e a Capoeira pelos brasileiros. Há semelhança, mas não tem nada a ver com a Capoeira. Justamente uma coincidência.
Existe Capoeira hoje em Angola?
Em Angola nunca houve Capoeira. Tem dois escritores do Rio de Janeiro que dizem que a Capoeira veio da África. Mas não. Ela foi criada no Brasil, nas senzalas, nos engenhos, onde os pretos trabalhavam. Então quando eram calçados pelo chamado “Capitão do Mato”, eles se defendiam com pesadas, rasteiras. Em princípio a lenda de Capoeira é essa, que existia em 1918 quando meu pai criou a Dança-de-Batuque e quando eu criei a Capoeira Regional.
Esse assunto aqui é diferente. Tem-se comentado muito, ultimamente, sobre a “deformação” da cidade de Salvador, principalmente em função do turismo e da construção de viadutos, abertura de avenidas, etc. Comenta-se inclusive que alguns casardes pegaram fogo assim que a prefeitura decidiu passar por ali um novo viaduto. O que é que o senhor tem observado sobre este problema?
Francamente, isto não está no meu conhecimento. A única coisa que eu vi acontecer foi justamente o incêndio do Mercado Modelo, que dizem que era tradição da Bahia. Todo ano o governo queria construir obras ali, etcetera e tal, até que por fim ele acabou pegando fogo.
O que o senhor acha do Caetano Veloso?
Francamente, eu não tenho o que dizer sobre ele. A matéria dele é uma e a minha á outra.
O senhor disse inicialmente que deixou a Bahia por questões financeiras. Quais as condições reais que está encontrando aqui ?
Aqui em Goiânia, trazido pelo Professor Osvaldo de Souza, que foi meu aluno e que eu tenho como um filho, eu espero, encostado a ele, ser ajudado por algumas autoridades daqui. Então, gostando da boa terra, para dizer melhor nunca vi mais mulher bonita! Aqui tem umas meninas! Meu Deus, por que é que eu sou velho?! De modo que o meu futuro é aqui em Goiânia. Porque a minha mulher recebeu o cargo de Zeladora… Diz-se por aí: “Mãe-de-Santo” – mas o verdadeiro nome é Zeladora-de-Encantado. Então aqui em Goiânia nunca teve um Candomblé e eu quero criar um. Minha mulher é a maior Zeladora da Bahia. Muitas pessoas desenganadas pelos médicos muitas vezes são salvas no Candomblé. Porque pode ser um problema do espírito. Às vezes a pessoa tem uma vida perseguida, uma incoerência com as coisas, fica aperreando pra levantar, tudo que faz não dá certo… Então com as rezas, com as coisas, ela pode salvar o indivíduo. Se minha mulher é bonita? Minha mulher é bonita demais!… Eu sou preto mas ela é caboclinha.
De modo que o meu futuro aqui em Goiânia é ensinar. Capoeira, Samba-de-Roda, Samba-Duro e Batuque, que não existe mais no Brasil. Essas coisas é que eu quero fazer.