Carta Aberta a um Capoeira
por Rogérião Bocaruiva

A roda de capoeira pode ser vivida como uma das formas mais profundas de expressão da nossa presença no mundo. Ela ultrapassa o jogo, o folguedo, a brincadeira e mesmo aquilo que costumamos chamar de prática corporal. A roda é, antes de tudo, uma experiência de relação. Nela, o corpo pensa, responde, inventa, recua, avança, espera, provoca, escuta e aprende. E, talvez por isso, aquilo que acontece dentro da roda possa reverberar para muito além dela, alcançando situações relacionais da própria vida.
Há, na roda, uma espécie de simulação da existência.
Não porque ela reproduza literalmente a vida, mas porque cria um espaço protegido e, ao mesmo tempo, imprevisível, onde podemos experimentar nossos limites e nossas possibilidades diante do outro. O jogador entra na roda trazendo sua singularidade, mas descobre imediatamente que ela não lhe basta. É preciso perceber o outro, interpretar seus movimentos, reconhecer seus silêncios, compreender seus ritmos e responder àquilo que ainda não aconteceu. O que importa não é somente aquilo que o outro fez, mas aquilo que ele pode fazer.
É nesse sentido que a capoeira talvez possa ser compreendida como uma pedagogia da vida.
A roda organiza uma situação humana por meio do simbólico. O berimbau, os atabaques, o canto, as palmas, o círculo, o chão, os corpos e a presença dos demais participantes não são simplesmente elementos que acompanham o jogo. Eles constituem o próprio campo de possibilidades em que o jogo pode acontecer. A roda estabelece um centro e, ao mesmo tempo, impede que esse centro pertença definitivamente a alguém.
Há algo profundamente próximo de certas formas de organização simbólica presentes em tradições africanas e afro-diaspóricas: a vida não aparece necessariamente como uma sequência de indivíduos isolados que buscam alcançar uma verdade final, mas como uma trama de relações na qual pessoas, ancestrais, natureza, memória, corpo, música e comunidade participam da produção do sentido. O rito não apenas representa a vida; ele cria uma situação na qual a vida pode ser experimentada, atualizada e reorganizada.
É possível pensar, portanto, que a roda seja menos uma representação do mundo do que uma maneira de produzir mundo.
O círculo não é apenas uma forma geométrica. Ele estabelece uma temporalidade própria. Não possui propriamente começo nem fim. Quem entra na roda chega a algo que já estava acontecendo e, quando sai, aquilo que permanece continua acontecendo sem ele. A roda antecede o indivíduo e sobrevive à sua passagem. Nesse sentido, ela guarda algo daquilo que as tradições africanas e afro-diaspóricas preservam como relação entre presente, ancestralidade e continuidade: ninguém começa absolutamente do zero, porque todo corpo chega trazendo consigo outros corpos, outras memórias, outras vozes e outras experiências.
Por isso, a roda pode produzir alegria e euforia, mas também tensão, medo, angústia, frustração e tristeza. E nem sempre esses sentimentos precisam ser nomeados. O corpo os experimenta antes que a consciência consiga transformá-los em palavras.
A roda permite viver aquilo que, muitas vezes, a linguagem ainda não consegue dizer.
Essa dimensão aproxima a capoeira de outras experiências artísticas nas quais o corpo deixa de ser simplesmente instrumento da expressão para tornar-se o próprio lugar onde a experiência acontece. É possível estabelecer, por exemplo, uma aproximação, ainda que cuidadosa, com o Butoh japonês. Surgido no Japão do pós-guerra a partir das experiências de Tatsumi Hijikata e Kazuo Ohno, o Butoh colocou em questão as formas convencionais de representação do corpo e explorou estados de transformação, memória, crise e existência.
A aproximação não está em uma suposta origem comum entre Butoh e capoeira. São experiências históricas e culturais distintas. O que interessa é outra coisa: ambas podem nos fazer perceber que o corpo não apenas executa uma linguagem; ele pensa através dela.
No Butoh, o corpo pode tornar visível aquilo que a representação convencional não alcança. Na capoeira, o corpo dialoga com outro corpo antes mesmo que qualquer palavra seja pronunciada. Um corpo pergunta e o outro responde. Um corpo oferece uma possibilidade e o outro a transforma. Um corpo ameaça e o outro desvia. Um corpo cai e o outro pode esperar. O movimento deixa de ser simplesmente movimento e passa a ser pensamento em ato.
Muniz Sodré percebeu uma aproximação semelhante quando colocou a capoeira em diálogo com as artes marciais orientais, especialmente o Wu-shu. Para ele, a dupla condição da capoeira — luta e dança, combate e jogo — encontra correspondências em determinadas formas orientais de combate que também trabalham com a circularidade, a espera, a adaptação ao movimento do adversário e a transformação da força.
A questão fundamental, porém, talvez esteja justamente naquilo que essas aproximações nos permitem perceber: diferentes culturas criaram formas artísticas capazes de transformar o corpo em lugar de conhecimento.
A literatura também faz isso.
Guimarães Rosa, tão mineiro quanto a paisagem que atravessa sua obra, escreveu em Grande Sertão: Veredas: “O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.” A frase de Riobaldo pode ser lida como uma chave extraordinária para compreender a experiência da roda.
Porque talvez a vida não esteja propriamente naquilo que conseguimos concluir sobre ela.
Talvez esteja no movimento entre uma coisa e outra.
Entre o ataque e a esquiva.
Entre a queda e o recomeço.
Entre o medo e a coragem.
Entre aquilo que pensamos saber e aquilo que o outro nos obriga a descobrir.
A roda é o mundo.
E o mundo gira.
Entramos na roda imaginando que sabemos alguma coisa sobre nós mesmos. Pouco depois descobrimos que o outro pode alterar aquilo que pensávamos saber. O adversário — palavra que talvez seja pequena demais para definir aquele que joga conosco — torna-se condição para que nossa própria experiência exista.
Não há capoeira sem alteridade.
Não há jogo de capoeira verdadeiramente solo.
A singularidade é necessária, mas ela não é suficiente. O indivíduo precisa aparecer com sua maneira própria de jogar, com seu corpo, sua história, sua malícia, sua coragem, seus medos e seus limites. Mas essa singularidade só pode se realizar plenamente porque existe outra singularidade diante dela.
É nesse ponto que a capoeira apresenta uma de suas maiores grandezas: ela nos ensina a sustentar a própria singularidade sem eliminar a singularidade do outro.
Não se trata de vencer o outro para que eu possa existir. Trata-se de construir uma situação na qual minha existência dependa da existência daquele que está diante de mim.
O outro não é um obstáculo externo à minha experiência.
Ele é parte dela.
Talvez seja essa uma das grandes forças civilizatórias contidas na roda: ensinar, por meio do corpo, aquilo que tantas vezes fracassamos em aprender apenas por meio das palavras. Para viver juntos, precisamos aprender a responder. Precisamos aprender a esperar. Precisamos aprender a avançar sem destruir, recuar sem desaparecer, atacar sem necessariamente ferir e reconhecer que o movimento do outro modifica permanentemente o nosso próprio movimento.
A capoeira nos coloca diante de uma experiência que é simultaneamente individual e coletiva. Cada jogador responde por si, mas ninguém joga sozinho. Cada corpo é singular, mas nenhum corpo é autossuficiente. Cada movimento nasce de uma decisão, mas toda decisão acontece dentro de uma rede de relações.
É por isso que a roda pode ser compreendida como uma espécie de laboratório simbólico da existência.
Ali experimentamos aquilo que somos e aquilo que ainda podemos vir a ser.
Ali o erro não é apenas fracasso: pode transformar-se em aprendizado.
A queda não é necessariamente o fim: pode ser parte do jogo.
A surpresa não é um acidente: é constitutiva da experiência.
E a incerteza não precisa ser eliminada para que possamos continuar caminhando.
Talvez seja exatamente essa a lição que a roda oferece à vida: não precisamos conhecer inteiramente o caminho para continuar caminhando.
A roda nos arrebata o leme com o qual acreditávamos controlar as tempestades. Faz-nos descobrir que não controlamos completamente o mundo, o outro ou mesmo a nós mesmos. E, diante dessa descoberta, somos obrigados a reaprender continuamente.
Por isso a capoeira é mais do que uma luta que se dança.
É mais do que uma dança que simula uma luta.
É uma experiência de mundo.
Uma maneira de experimentar a presença, a ausência, o risco, o limite, o desejo, o medo, a alegria, a memória e a transformação.
E talvez seja justamente por isso que ela possa dialogar com tantas outras formas de criação humana: com a literatura, quando esta transforma a travessia em conhecimento; com o teatro, quando transforma o corpo em acontecimento; com o Butoh, quando faz do corpo um território de memória e transformação; com o Wu-shu, quando a circularidade e a adaptação revelam outra compreensão da força; e com tantas danças que, em diferentes culturas, fizeram do movimento uma forma de pensar e de existir.
Todas essas aproximações não precisam apagar as diferenças entre as tradições. Ao contrário: é justamente preservando suas diferenças que podemos perceber algo que as atravessa — a capacidade humana de criar situações simbólicas nas quais a vida pode ser experimentada novamente.
A roda é uma dessas situações.
Nela, entramos para jogar.
Mas, de algum modo, saímos tendo vivido.
E talvez seja por isso que a roda nunca termine verdadeiramente.
Porque aqueles que dela participam continuam carregando seus movimentos para fora dela.
A roda continua girando dentro de nós.
Siga seu caminho, assim como um rio rasga a planície, dá saltos, se concentra entre montanhas e se espalha entre florestas. E procure entender que um rio ao desembocar em outro rio ou no mar, trouxe consigo águas e sedimentos de sua longa jornada. Quanto maior o Rio, menor a quantidade de água da sua origem, do seu nascedouro…mas ela existiu!